
Para espantar os males
Praia, 15 de Janeiro de 2008
O ano de 2008 entrou galopante com grandes e importantes conquistas que os nossos governantes “basofos”, e com razão, fazem questão de bradar aos ventos: O país agora é de Desenvolvimento Médio, ou será de Rendimento Médio?! Olha, com tanta confusão entre a imprensa e os próprios políticos eu já nem sei. Mas isso é tema para outra altura. Contudo, significa que esses “dez grãozinhos di terra” uma vez perdidas no meio do Oceano Atlântico agora brilham “k´nem Stréla na Céu” como cantou Nando da Cruz pela voz da Cize. É, “Cabo Berdi sta na moda!”
A juntar-se a isso, é claro, há a parceria especial com a União Europeia e a entrada do país na organização Mundial do Comércio (OMC).
As expectativas são altas, o PIB cresce a olho nu e já há quem diga (Banco Mundial) que a economia “berdiana” tenha atingido em 2007 um crescimento de dez por cento (dois dígitos preconizados pelo Ministro José Maria Neves). Os jornais anunciam números recordes de investimentos externos, sobretudo, para não dizer exclusivamente, no turismo, graças a uma política agressiva conduzida por Victor Fidalgo (presidente da Cabo Verde Investimentos) de promoção de Cabo Verde lá fora.
São mais postos de trabalho que se abrem, milhões de euros que entram para os cofres do Governo em vendas de terreno, impostos para infra-estruturas etc., em suma, o país está a crescer. O momento é de festa, porém, aproximam-se as eleições autárquicas e há muita mosca querendo estragar a sopa do optimismo.
Não, não quero ser mais uma mosca nessa sopa, mas, porém, tenho que dizer que desconfio de algum tempero a mais nessa mistura, apesar do optimismo fazer parte da minha natureza. Vejamos no que se traduz esse crescimento. Os mais postos de trabalho (leia-se criados de hotéis e num futuro próximo, de resorts de luxo) são de qualidade quando muitas vezes se pagam salários de 10 a 15 contos nesses estabelecimentos? Putz! A minha mãe chegou a pagar 12 contos a uma empregada doméstica, sem contar os presentes, a atenção, o carinho e o respeito que em grande parte das vezes não recebem dos patrões estrangeiros. Ela ficou connosco por mais de dez anos.
Para mim, a palavra-chave é desenvolvimento e este quer dizer equilíbrio (o equilíbrio possível, não utópico) na distribuição de riquezas, mais e melhores empregos para o povo como diria Marx. É o espírito do “Pininha” que baixou em mim, mas vamos deixar o defunto em paz que este já fez a sua parte...Huh hum! O Marx, porque o Pininha está bem vivo para “azucrinar” a paciência do JMN e que o diga Pedro Pires e até o Al Gore.
Enfim tenho as minhas dúvidas quanto ao caminho escolhido pelo MpD e seguido pelo PAICV para conseguir o desenvolvimento, tudo bem que muita coisa melhorou como a qualidade de vida de alguma gente, da saúde, da educação. Há mais escolas, universidades, hospitais etc., mais ruas calcetadas (até a minha querida Pretória na ilha do Sal) está a ser calcetada neste momento… É a maravilha das eleições...
Entretanto, com os investimentos que estão a entrar, não deveria sobrar um pouquinho mais de “bufunfa” para o povo? Pelo que vejo e percebo, a coisa tende a ficar cada vez mais feia em ilhas como o Sal em que o turismo além de inflacionar os preços e aumentar as especulações, vai retirando cada vez mais poder o de compra dos salenses. longe vai o tempo das lagostadas e mariscadas… Como vai acontecer com a Boa Vista.
O turismo deveria ter trazido novas oportunidades de emprego, mas principalmente de criação de empresa própria, explorando os serviços ligados aquela indústria. Mas, o que se vê é que os bares e pubs pertencem a italianos, sobretudo, espanhóis e irlandeses. As lojas de souvenirs também e, quando menos, aos continentais africanos (sempre é mais bonito de que mandjáku). Até aluguer de bicicletas para turistas está nas mãos dos italianos.
Com tudo isso, é frequente ouvir dizer que os “kriolos” é que não têm iniciativa etc., você já tentou fazer um empréstimo no banco para algum projecto? Já?! Então sabe do que estou a falar. Já tentou pedir terreno junto a uma área turística para montar um serviço? ZDTI´s (Zona de Dominio de turistas e internacionais, esta é a minha leitura) diz-lhe alguma coisa? E agora, mais do que nunca vamos ter de competir com os europeus…
Ao que parece, estamos a vender não só terrenos (a nossa terra), mas a nossa liberdade e dignidade, porque daqui a uns tempos, mantendo o exemplo do Sal, nem vamos poder circular em nosso próprio país. Pessimismo exagerado? Espero bem que sim, mas não prevejo coisas tão boas para os meus filhos que ainda nem nasceram, quanto mais aos meus netos. Oxalá esteja errado!
Demitir Victor Fidalgo é só um pequeno passo, há que repensar a estratégia e, por favor, negociem melhor as contrapartidas com os investidores estrangeiros e, quem sabe assim o crescimento vire mesmo DESENVOLVIMENTO! Ah! E já ouviram falar em concessão de terrenos?!... Hoje Acordei com a Macáca!

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